x

Feeed

Para além da representatividade: a importância da energia feminina no ambiente de trabalho

por Ana Beatriz Alves
Oct 21st, 2020 » 8 min (Empoderamento) (Representividade)

Foto por: Emily Torres

Como uma mulher engajada e politizada, sempre defendi veementemente a representatividade feminina dentro das empresas. Afinal, se queremos um futuro mais progressista e inclusivo, precisamos diversificar as visões que são postas à mesa na hora de desenvolver qualquer trabalho. E, claro, que essa visão não se encerra na questão feminina, mas também na inclusão preta, periférica, LGBTQI+ e por aí vai. Entretanto, um ponto em específico vem me chamando a atenção: a representação que se encerra em si mesma, muitas vezes, não é tão potente como imaginava. E, aqui, meu objetivo é trazer uma provocação dentro da lente específica das mulheres.


Acredito que existia um romantismo e até uma ingenuidade minha em acreditar que, a partir do momento que mais mulheres entrassem nos ambientes corporativos — especificamente em cargos de poder, decisão e influência — , a transformação que esperava aconteceria por si só. A realidade se mostrou bem diferente dessa. É diferente porque estava ignorando séculos, revoluções e impérios construídos dentro de uma lógica e energia masculina. A concepção de trabalho como conhecemos hoje é extremamente masculina e nós, mulheres, reproduzimos esse padrão de comportamento sem mesmo perceber.


Yin Yang | Simboliza par de forças fundamentais do universo. Ao mesmo tempo antagônicos e complementares.

E aqui falo pela lente da minha própria experiência e mecanismo pessoal, bem orientados pela lógica da energia masculina. E a conta, uma hora ou outra, chega. O equilíbrio dessas duas forças pode ser transformador — pessoal e profissionalmente.

Energia masculina x feminina

Nesse momento você deve estar se perguntando…

Beleza, Ana. Mas que diabos são essas tais energias masculina e feminina?


A energia masculina vem de um lugar biológico, do próprio metabolismo e sexualidade; e também de um lugar cultural, a tão complexa "masculinidade", construída socialmente por décadas. A energia masculina é orientada para ação, força, realização, resultado. A energia masculina é estritamente expansiva e pouco cíclica. Se pudéssemos expressar em formas, seria uma reta.


Um dos grandes problemas da masculinidade como conhecemos hoje é justamente a falta do contraponto da — chamada aqui — energia feminina. Ignorada e subjugada pela sociedade até os dias atuais.


A energia feminina, por sua vez, é mais complexa. É um eterno ciclo de expansão e recolhimento. Uma das formas de tangibilizar a energia feminina com clareza é através do ciclo menstrual — uma oscilação hormonal de 28 dias que também constrói muito sobre a nossa energia disponível no campo astral e nas relações. Ao longo desses dias, temos momentos de pura expansão e realização (normalmente relacionados à nossa ovulação e período fértil) e outros momentos de puro recolhimento e escuta (relacionados ao período pré-menstrual e menstrual).


O conflito surge exatamente daí: Uma sociedade construída sob lógica masculina, expansiva, realizadora, de resultado e escala, que pouco se recolhe, escuta; pouco se transporta para o campo sensível. Esse tema por si só é bem vasto e vejo que, de alguma forma, vem sendo debatido sob várias perspectivas. Entretanto, e por isso da lente específica deste texto, pouco têm sido debatido desses reflexos no ambiente de trabalho. Ou até mesmo sobre a nossa percepção de trabalho em si.


Ora ora, se não são as palavras da moda!

Como meus amigos costumam dizer: o mundo não gira, ele capota.
Voltemos à história:

O mercado de trabalho e seus signos, como conhecemos hoje, bebe fundamentalmente da Era Industrial. Da realização, força, escalabilidade, resposta. Reprodutibilidade técnica. Onde não à toa a energia masculina comandava: o homem protagonizava os novos caminhos do negócio, da economia e do mundo. A mulher, dentro de todas as limitações socioculturais, exercia um papel secundário, dedicado à casa, maternidade e família. Claro, já usávamos calças e algumas chegaram a operar máquinas, mas de certo a influência no sistema era restrita, pra não se dizer nula.


Apesar de todas as sequelas que nos assombram até hoje — do modelo educacional ao conceito das grades horárias — o mundo mudou. Hoje vivemos em uma das eras mais complexas da humanidade, mais globalizada, polarizada e digitalizada do que nunca. A pandemia do COVID-19 coroou o processo, apresentando-nos novos modelos de relações e trabalho, além de escancarar o lado mais sórdido da sociedade.


Devido a complexidade dos sistemas, as novas habilidades para o profissional do século XXI vêm sendo discutidas. Quais são as palavras da moda no mundo corporativo atualmente? Aquelas que não saem da boca dos palestrantes…


Empatia. Escuta. Presença (e o debate de práticas como a meditação, yoga e etc. como combate à ansiedade).


Não é à toa que "O Futuro É Feminino" é uma frase cada vez mais recorrente em cartazes de todo o mundo. O mercado de trabalho anseia pela energia feminina, só não vê quem não quer. A grande questão é: será que existe plena consciência disso? Sabe-se que querem empatia e demais competências socioemocionais pra ontem. Mas será que já perceberam que o mercado tem muito a aprender com as mulheres?


Sim, Oprah, eu sei.

Desconexão com a sua energia feminina, desconexão com a sua potência

Trago aqui exemplos da minha vida profissional com e sem o alinhamento ao meu ciclo e energia feminina. Neste caso, todos dentro de um famoso período: a TPM.

"Eu sou a lua e a lua sou eu" — Artista desconhecida.

Dentro do ciclo feminino, a TPM é momento de recolhimento. Em termos biológicos, é a baixa de hormônios que, por consequência, desemboca em uma baixa de energia. Em paralelo com as fases da lua, ela se assemelha à lua minguante. Menos disponíveis energeticamente, é tempo de introspecção, reflexão, escuta do corpo. Um bom momento para olharmos nossos erros, ouvir do corpo nossos sintomas que certamente indicarão o que está precisando ser curado. Se transportado para o campo profissional, é um excelente momento para observação, escuta e reavaliação.


A fama da Tensão Pré Menstrual, de extrema irritabilidade e sensibilidade, vem de, muitas vezes, nos forçarmos energeticamente para continuar expandindo quando na verdade precisamos recolher. Esse conflito nos desestabiliza. A Ana Beatriz de anos atrás era aquela que, na TPM, se considerava improdutiva e se recolhia à própria insignificância e frustração com uma coquinha gelada e uma barra de chocolate. Parecia que nada fluía. Não me expressava direito nas apresentações, não entregava os melhores resultados, não produzia no nível que sempre me exigi a produzir (olha a energia masculina aí).


Recentemente, através de um processo intenso de reconexão com minha energia feminina e meus ciclos, tudo mudou. A TPM saiu do lugar de tensão e virou mais um Tempo Pra Mim. No trabalho, virou o momento perfeito para tecer os melhores diagnósticos, ser capaz de ouvir mais do o habitual, pedir feedback e questionar muito minhas certezas vindas da impulsividade. E, dançando conforme a música, utilizar isso a meu favor. Me respeitando. Me recolhendo ao meu próprio tamanho, de tempos em tempos.


Descobri que justamente essa fase, a que eu lutava tanto contra, é a mais importante pra mim. Isso porque reconheço essa energia vital de realização e impulsividade inerente à minha personalidade. Sem o Tempo Pra Mim, me atropelava, me excedia, fazendo mais do que de fato conseguia ou deveria realizar. Ou, então, entrava no mar da vaidade — onde uma realização puxa outra, que puxa outra, que puxa outra… sem muito tempo pra autocrítica. Perigoso, né? No ambiente de trabalho, então! Uma verdadeira praga.


Através do alinhamento e respeito aos meus ciclos e a fluidez da minha própria energia, consigo chegar mais inteira para a parte que tanto amo: a da realização, de criar. Essa energia fértil e criativa — a lua cheia — que tem seu momento pra acontecer.


Os sistemas corporativos e culturas organizacionais hegemônicos agridem a energia feminina. Não possibilitam um ambiente saudável para que ela flua e floresça. Para que os ciclos existam. Em mercados extremamente masculinizados como o meu — publicidade, marketing e negócios — , nem sempre é fácil. Não é sem razão que sintomas como a vaidade, alienação, agressividade e ansiedade sejam tão comuns.


Porquê a representatividade que se encerra em si mesma não é eficaz


De que adianta mais mulheres ocupando cargos de liderança dentro das empresas se ainda são submetidas a um ambiente cem porcento masculino? Se, dentro dos dilemas corporativos, são confrontadas para “colocar o pau na mesa" e por aí vai? Só inserir a mulher ali, sem nenhuma possibilidade de expansão, é subaproveitar seu potencial.


O mais triste de tudo não é nem a empresa subaproveitar esse potencial — o que, na real, é o que menos me importa — mas é a desconexão da própria mulher com seus ciclos, sua energia e sua potência. Toda a frustração que nos é causada por simplesmente caminhar longe de nós mesmas, muitas vezes. Por retro-alimentarmos um ciclo automático de produtividade e realização que, além de não ser saudável, caminha contrária à grandeza e da completude da nossa energia.


Está na hora de repensar não só a representação, mas também os modelos.


Campanha #LikeAGirl da Always, marca de absorventes, que questiona o que é "fazer algo como uma garota".

Se você tem uma empresa, o quanto ela é um ambiente saudável para a energia feminina? O quanto ela respeita e acolhe esses ciclos? Precisar, com toda certeza, ela precisa.


O quanto as nossas próprias atitudes profissionais bloqueiam e inibem a energia feminina que tanto nosso século demanda de todos nós? Quanto espaço estamos dando para que mulheres ocupem esse lugar de protagonismo? Quanto homens reconhecem nas mulheres esse referencial de desenvolvimento?


Empresas, é preciso estar prontas não só para contratar mulheres, mas permitir que elas protagonizem a transformação que vocês mesmas tanto almejam. A energia feminina é sobre isso. Mulheres conseguirão exercer o papel sensível, empático, criativo, realizador e complexo porque passamos por todos esses lugares todos os meses. Logo, é intuitivo e inevitável.


Uma tarefa de todes


Não é preciso de um útero ou órgão reprodutor feminino para se conectar com sua energia feminina. Ela está disponível para todes e existem diferentes ferramentas para acessá-la — observar os ciclos lunares e conduzir suas ações conforme as fases da lua é uma delas. Entender quando recolher, quando escutar, quando intencionar, quando criar. Tudo isso a lua pode nos ensinar (meio hare, mas juro que ajuda). Essa cadência é fundamental para dar conta de tudo que precisamos processar.


Para mulheres que sentem que estão distantes dessa conexão, a Mandala Lunar pode ser uma ótima ferramenta de autoconhecimento.


Como bem ilustrado na introdução do texto, é o momento de equilibrar nossas duas energias. O modelo econômico como concebemos hoje é estritamente masculino em aspectos profundos — e todos perdem com a manutenção desse sistema.


Uma Escola de Negócios Femininos chamada Sister.is Feminist Business School — lançou, anos atrás, um manifesto através da seguinte provocação:


Se o capitalismo é um sistema econômico que valoriza aspectos masculinos, como uma nova economia poderia ser?


Sister.is | Proposals for the feminine economy

À direita, apresento-lhes o modelo que construímos através do protagonismo exacerbado da energia masculina. À esquerda, onde podemos chegar através da energia feminina. E aí? Que mundo você quer construir? Ou melhor: que mundo precisamos construir?


.    .   . 

Dedico esse texto a algumas mulheres incríveis que, de alguma forma, cruzaram minha trajetória profissional e me inspiram desde então com sua energia feminina:


Aline Rossin; Alice Motta; Amanda Salles; Carol Vieira; Fernanda Mota; Isadora Assis; Jordana Bispo; Mariana Campello; Raíssa Ferreira; Raquel Stein; Rosangela Maria; Sandra Queiroz; Vivianne Oliveira.


Share