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Feeed

Algumas palavras sobre meu voluntariado em Uganda

por Aline Rossin
Sep 16th, 2019 » 3 min (africa) (amor) (doar) (uganda) (voluntariado) (voluntário) (yoga)

Difícil escrever esse texto sem fazer dele um clichê. Mas escreverei mesmo assim, do fundo do meu coração, o que estou sentindo. 

Escrevo esse texto na casa de voluntários em Mutungo, Uganda. Uma casa para cerca de 30 pessoas com quartos compartilhados e pessoas de diversos países que vieram para participar de diversos programas voluntários.

Temos direito a três refeições por dia e eles nos levam e trazem dos lugares onde fazemos nossos projetos. O banho é gelado, a comida é o que eles oferecem e a casa é razoavelmente limpa considerando a condição que a maioria na cidade vive. 

O meu projeto é o de esportes. Educar e transformar através do esporte. O que amo, acredito e me sinto muito honrada em participar. Vim para, durante uma semana, liderar o treinamento de esportes de meninos entre 6 e 12 anos que moram em favelas na região de Kajjansi, cerca de 30 minutos de carro da capital Kampala.

O projeto 

No primeiro dia do treino me assustei ao ver que a única bola que eles tinham era feita de restos de garrafas e sacolas plásticas e que eles não tinham nenhum outro material. Nos dias seguintes me assustei e me entristeci com coisas muito piores do que essas. 

Os meninos que fizeram parte do projeto - cerca de 40 - tinham condições que variavam entre ter apenas uma muda de roupa pra tudo na vida e nenhum sapato, até alguns que tinham condições de usar uniformes de times internacionais comprados com muito esforço pela família por conta da gigante paixão pelo esporte.

Nossos dias começavam com meditação, seguida de aula de yoga e depois um longo treino de futebol. Nunca havia dado aula de futebol na vida, mas pesquisei e peguei dicas com alguns experts e passamos a fazer um treinamento focado em melhorar habilidade e condicionamento físico. 

Sempre depois dos treinos voltávamos para meditação e fazíamos os nossos agradecimentos individuais e coletivos.

Os ver de olhos fechados mexendo os lábios agradecendo me enchia o coração. Quando o agradecimento era para ser em voz alta, a unanimidade era agradecer por poder estar ali  com todos os amigos reunidos jogando futebol. 

Robert, técnico responsável por reunir os meninos pra participarem do projeto, foi comigo a uma loja da cidade pra comprarmos bolas, cones, apito e coletes. E aos poucos nossos treinos foram ficando mais emocionantes e “profissionais”.

No último dia eu e Robert organizamos um grande campeonato. 4 times, 10 meninos cada, 6 partidas e o Real Madrid consagrado como o grande campeão.

A cidade 

Além das aulas de esportes, tive a oportunidade de visitar favelas onde as pessoas vivem em condições absolutamente sub-humanas, sem nenhum saneamento básico. E muitas vezes sem nada para comer. 

Ver e viver tudo isso é maluco demais.

No momento que escrevo tudo isso sinto uma alegria gigante dentro do meu peito por estar aqui aprendendo tanto com tudo isso e um desespero em tamanho proporcional.

Estar aqui é estar em um lugar impossível de explicar em palavras. Um lugar que me mostrou coisas, muitas vezes, insuportáveis de ver e sentir. E certamente impossíveis de ignorar. 

E o que fazer com tudo isso?

Me tornei professora de yoga há 5 anos e uma das coisas que aprendi é que somos todos um só. Mas estando aqui não consigo mais acreditar nisso. Não somos todos um. 

Essa é a quarta vez que venho pro continente africano e que tenho uma sensação (me perdoem pelo que vou escrever) que Deus esqueceu que existem alguns lugares e pessoas nesse mundo. É como se elas precisassem se contentar com o que tem. Com comer o que os outros dão, usar roupas dos outros, não ter oportunidade de estudar, não ter o que fazer o dia inteiro, conviver com lixo a céu aberto na cidade toda, doenças que poderiam ser facilmente evitadas com o mínimo de saneamento básico ... 

Vale dizer que essa não é uma realidade de 100% das pessoas que moram em países do leste africano. Que existe riqueza tbm, que existe saneamento básico, boas escolas e universidades, pessoas com condições de vida bastante confortáveis. Mas infelizmente a realidade de milhões delas é como citei acima. 

É dilacerante ver uma mãe não poder curar seu filho de malária porque não tem dinheiro para comprar o medicamento (custa em média 2 dólares). É dilacerante ver crianças na rua cheirando um gás que as faz sentir menos fome. É dilacerante crianças vindo pra aula de pijama todos os dias da semana pq é a única roupa que eles têm. É dilacerante ver crianças que não tem o que comer. 

E a partir do lugar que ocupo na sociedade em que vivo - economicamente privilegiada, com alto nível de estudo, inúmeras referências culturais, ótimo acesso a saúde, entre outras coisas  - é absolutamente obrigatório doar. Não é uma questão de ter um bom coração, ser uma pessoa especial. É uma questão de obviedade. Não há outro caminho que não seja esse.

E te digo amigo(a), se vc come todas as refeições do dia, tem água corrente em casa, uma cama pra dormir, recursos pra ir ao médico e comprar remédios vc é absolutamente privilegiado. E se você já percebeu isso é está doando algo - qualquer recurso que você tiver (tempo, dinheiro, inteligência..) que bom, é o mínimo que poderia fazer. Se não está, não demore. A vida é curta demais e pode ser tarde quando você perceber que olhar pro próximo como pra você mesmo é o que realmente nos faz ser apenas um só.

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